#307 – Brassando com Estilo: American Strong Ale, com John Palmer

Brassagem Forte - John Palmer

American Strong Ale: potência, malte e lúpulo sem brigar no copo

Neste primeiro episódio de 2026 do Brassagem Forte, Henrique Boaventura realiza um daqueles encontros “de checklist” para quem quer produzir cerveja com intenção: conversar com John Palmer sobre como construir uma American Strong Ale tecnicamente correta, intensa e, ainda assim, equilibrada.

Com muita alegria, o Brassagem Forte segue contando com a parceria da Hops Company, da Levteck, da EZbrew e da Cerveja Stannis.

O atrativo da American Strong Ale

Logo de cara, Palmer explica por que esse tipo de cerveja o conquistou desde o início dos anos 1990: ela entrega riqueza de malte, mas também uma amargura significativa, o que cria uma experiência “grande” e completa, sem ser unilateral. Além disso, essa combinação é justamente o que diferencia o estilo de uma cerveja apenas maltada ou apenas lupulada, porque a proposta é a tensão controlada entre os dois eixos.

E o que a diferencia de outras cervejas potentes, às vezes consideradas “extremas”?

Onde a American Strong Ale se separa da Imperial Red

Embora exista parentesco com American Amber Ale e com a Imperial/Double Red, Palmer aponta uma diferença-chave: a American Strong Ale puxa mais para tostado e “crosta de pão”, enquanto a Amber tende a ser mais “base malt + caramelo + lúpulo americano”. Ou seja, na Strong Ale entra um componente de breadiness (pão, casca, tostado), de panificação, que lembra Munich malt e maltes “biscuit/aromáticos”, somando uma terceira dimensão ao dulçor e ao caramelo.

Assim, dá para pensar numa troca de ênfase: não é só “caramelo na frente”, mas uma riqueza maltada mais profunda, com tostado e melanoidinas como acentuação. Ao mesmo tempo, Palmer faz um paralelo útil com lagers: ir de Munich Dunkel para Bock/Doppelbock é ficar mais forte e mais “bread crust”; na Strong Ale, você adiciona essa pegada, mas ainda mantém o caráter de caramelo típico do lado americano.

Grist: base forte, caramelo controlado e tostado como acentuação

Para formular o grist, Palmer sugere um caminho bem objetivo. Primeiro, mirar em 80–85% de malte base, preferencialmente um pale ale malt com mais caráter (um English pale ale malt funciona muito bem). Se, por outro lado, você usar Pilsner como base, então é interessante compensar com 3–5% de malte tostado/aromático (biscuit, CaraAroma, algo com pegada de melanoidina e crosta de pão). Além disso, ele recomenda 5–10% de maltes caramelo, justamente para garantir corpo, doçura residual e textura. E, como acabamento, entram 3–5% de um componente tipo Dark Munich (algo na faixa de 10–12 °L, podendo chegar perto de 40 EBC) ou Aromatic/CaraAroma para dar profundidade, inclusive com opções que passam de 100 EBC dependendo do produto.

Em termos de força, a faixa discutida fica em 6,5% a 10% ABV. Já no balanço, Palmer usa o raciocínio de BU:GU: você pode sair de algo mais “Strong Amber” (cerca de 0,75–0,8) e ir até 1:1 quando quiser um perfil mais agressivo, quase IPA. O ponto é simples: o amargor precisa “cortar” o malte, para o final ficar maltado, mas seco e limpo, sem doçura arrastada.

Dica prática de caramelo: Palmer gosta de blend (por exemplo 40/60/80 e um toque de 120 para trazer notas de “uva passa/burnt sugar”), porque isso amplia corpo e complexidade. Ainda assim, ele lembra que receitas comerciais costumam simplificar por consistência.

Mostura e fervura: fermentabilidade como ferramenta de equilíbrio

Como os maltes caramelo não aumentam a fermentabilidade, Palmer defende que você “ganha o jogo” na mostura do malte base. Por isso, uma infusão simples a 65–66 °C já funciona muito bem. No entanto, hoje é fácil fazer rampas em sistemas programáveis: começar mais baixo (55–60 °C) e subir até 65 °C pode favorecer beta-amilase e ajudar a cerveja a terminar mais seca.

Ele também comenta que maltes modernos são muito modificados e convertem rápido, então longos descansos em temperaturas altas tendem a render pouco benefício; muitas vezes, a conversão principal acontece nos primeiros 20 minutos, e o resto é ajuste fino do perfil de açúcares.

Na fervura, a visão dele é pragmática: 60 minutos e a complexidade vem dos maltes especiais, não de alongar a fervura para criar melanoidinas no processo. Isso reduz variáveis e evita sabores “tintosos/ink-like” que podem aparecer com fervuras longas, dependendo do conjunto de fatores.

Lúpulo: amargor firme, aroma pontual e nada de “embolado”

Aqui Palmer solta uma tese importante: sabor de lúpulo e sabor de malte podem entrar em choque; portanto, muito lúpulo de “meio de fervura” pode embaralhar a riqueza maltada. Assim, ele gosta de estruturar a carga de lúpulo com uma lógica clara:

  • ~50% do amargor (IBUs) aos 60 min, com um lúpulo limpo (Magnum, Perle, Mount Hood; ele também cita Chinook como opção).
  • Os outros 50% divididos, por exemplo, em ~25% aos 15 min e ~25% em whirlpool e/ou dry hop, dependendo do objetivo.

Quanto às variedades, Palmer é old-school: prefere cítrico-resinoso/pinhoso (Cascade, Centennial, Chinook, Summit; ele também comenta que Citra ainda pode funcionar). E faz um alerta direto: evite lúpulos com caráter forte de alho/cebola (sulfuroso), porque isso tende a colidir com o malte. Já os lúpulos “super frutados” modernos podem entrar como acento, desde que não roubem o espaço do malte.

Fermentação, água e carbonatação: o acabamento define a bebabilidade

No perfil de fermentação, o estilo aceita de neutro a moderadamente frutado. Palmer lembra que historicamente ele nasce com levedura neutra tipo Chico/“Cal Ale” (WLP001/US-05), mas também há leituras com London ale (mais ésteres). Ainda assim, se você combinar London + lúpulos super frutados, então a cerveja pode migrar para algo mais “britânico/old ale” e sair da percepção de American Strong Ale, principalmente em competição.

Temperaturas citadas:

  • Neutras: 17–18 °C.
  • London: 20–21 °C.
  • Kveik Voss: Palmer já usou e gostou, na faixa de 35–37 °C, trazendo um caráter de laranja que combinou com maltes mais escuros; porém, ele reconhece que isso pode destoar do estilo em julgamento, embora fique extremamente bebível.

Para água, ele recomenda perfil balanceado ou com sulfato um pouco mais alto, visando final mais seco: RA perto de zero (aprox. -25 a +50, conforme a cor), cálcio 75–100 ppm, sulfato 75–125 ppm e cloreto 75–100 ppm, com leve vantagem para sulfato.

Já a carbonatação aparece como detalhe que muda tudo. Ele cita a Arrogant Bastard, da Stone Brewing, como referência e observa que, na garrafa, 2,5 volumes pode parecer duro; no copo/chope, ao liberar CO₂, a cerveja “amacia” e fica mais equilibrada. Para competição, a dica é clara: engarrafar com carbonatação um pouco mais alta (2,5 até 3,0 vol), porque ao longo do tempo na taça os juízes percebem melhor a evolução aromática e sensorial. E, se a ideia for servir em cask ou com stout faucet/sparkler, essa aeração também suaviza a aspereza do amargor e valoriza o conjunto.

Receita-base do John Palmer e o que ela ensina

Palmer compartilha sua receita do How to Brew, chamada “Confident Bastard”, para 20 L e OG 1,070:

6,25 kg de pale ale malt, ~227 g de Briess Victory (biscuit/toasted) e ~454 g de Weyermann CaraAroma. No lúpulo, ele usa Chinook, Centennial e Cascade, chegando a ~75 IBUs, com lógica de BU:GU perto de 1:1. Curiosamente, é uma versão mais seca e menos “caramelo”, focada no tostado/bread crust, e fermentada com levedura neutra a 17–18 °C, fechando em torno de 2,5 volumes.

O caminho mais seguro para acertar o estilo

Se a American Strong Ale é um “cabo de guerra” entre malte e lúpulo, a técnica aqui serve para impedir que a cerveja vire bagunça. Portanto, construa o malte em camadas (base + caramelo + tostado como acento), enquanto usa o amargor para dar corte e final limpo; depois, escolha uma estratégia de lúpulo que respeite o espaço sensorial do malte. Por fim, ajuste fermentação, água e carbonatação para entregar potência com bebabilidade.

Quando tudo encaixa, o resultado é exatamente o que Palmer descreve desde o começo: uma cerveja grande, rica, amarga na medida e impossível de passar despercebida.

#306 – Resultado do Censo da Cerveja Caseira 2025

Com 2.770 respostas coletadas em todos os estados do Brasil, o Censo da Cerveja Caseira Brasileira 2025, fruto de um esforço contínuo do Brassagem Forte, traz agora um retrato mais amplo e consistente da produção no país, revelando tendências técnicas, desafios e perfis de quem vive essa paixão diariamente.

E para mergulhar nos números e nas análises, fechando também com chave de ouro o ano de 2025, Henrique Boaventura recebe grandes parceiros do fazer e divulgar cervejas: Jamal Awadallak e Ludmyla Almeida. Não perca esse papo, nem os dados e os achados dessa pesquisa!

O Brassagem Forte conta com a parceria da Hops Company, da Levteck, da EZbrew e da Cerveja Stannis.

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#305 – Perguntas e Respostas, vol. 15

Neste décimo quinto episódio da série de “Perguntas e Respostas” do Brassagem Forte, Henrique Boaventura assume o microfone sozinho, mas não exatamente em solidão. Ele brinca que está acompanhado pela “companhia imaginária” de personagens populares, que emprestam voz às dúvidas enviadas pelos apoiadores, apoiadoras e pela galera do Instagram. É a comunidade que guia o conteúdo!

Então bora conferir essas inquietações e os esforços do Henrique para sanar tudo?

O Brassagem Forte conta com a parceria da Hops Company, da Levteck, da EZbrew e da Cerveja Stannis.

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#304 – Casks e Cask Ales, com João Kolling

Um guia técnico completo para entender a Real Ale

Este episódio reserva uma nova incursão pela técnica e pela história de um estilo de cervejas, com todos os seus meandros explorados e explicados por Henrique Boaventura e ilustres convidados. Desta vez, o Brassagem Forte recebe João Alberto Kolling, Headbrewer da Schouskjelleren e Nedre Foss Gård em Oslo, na Noruega.

É mais uma entrega de qualidade e que conta com a parceria da Hops Company, da Levteck, da EZbrew e da Cerveja Stannis.

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#303 – Dia de Julgamento: German Leichtbier, com Lucas Prates

O Dia de Julgamento é uma das séries mais aguardadas do Brassagem Forte, inspirada no programa estadunidense Dr. Homebrew. Nela, jurados certificados pelo BJCP (Beer Judge Certification Program) avaliam uma cerveja caseira ao vivo, com a presença da pessoa que a produziu.

Neste episódio, Henrique Boaventura e Gabriela Lando recebem Lucas Prates, cervejeiro do Vale dos Sinos-RS, para julgar sua German Leichtbier. O programa revela detalhes técnicos da receita, da fermentação e até do perfil mineral da água utilizada.

É uma verdadeira aula de avaliação sensorial e de processo, que conta com a parceria da Hops Company, da Levteck, da EZbrew e da Cerveja Stannis.

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#302 – História da cerveja alemã, Rauchbier e Bamberg

Neste episódio especial do Brassagem Forte, Henrique Boaventura recebe o austríaco Andreas Krennmair, para um mergulho histórico e técnico nas tradições cervejeiras alemãs.

É mais um papo de altíssimo nível e conhecimento, que conta com a parceria da Hops Company, da Levteck, da EZbrew e da Cerveja Stannis.

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#301 – A Hora Ácida: sua Saison pode ser selvagem!

Sua Saison Pode Ser Selvagem: fermentações mistas, selvagens e o renascimento do estilo

Mais um episódio da série A Hora Ácida, em que Henrique Boaventura e Diego Simão, da Cozalinda, aprofundam questões sobre fermentação e nacionalização de modos de produzir. A vez é das Saisons.

Papo de alto nível, que conta com a parceria da Hops Company, da Levteck, da EZbrew e da Cerveja Stannis.

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#299 – Brassando com Estilo: Best Bitter

Brassando com Estilo

A introdução de um estilo histórico

Este episódio da série Brassando com Estilo reúne Henrique Boaventura e João Kolling, cervejeiro brasileiro radicado na Escandinávia, para uma conversa profunda sobre um dos estilos ingleses mais tradicionais e ao mesmo tempo desafiadores de se reproduzir: Best Bitter.

Kolling, profissional desde 2013 e com passagens por cervejarias como Seasons, Dogma e a sueca Good Guys Brew, atualmente comanda a produção da Scouse Kjelleren em Oslo, Noruega. Além de elaborar receitas para mais de 14 bares e restaurantes, ele mantém viva a tradição do serviço em cask ale, prática que exige conhecimento técnico e respeito às raízes da cultura britânica da cerveja.

“A vida era mais simples, né? Era abrir a torneira, servir três palmos de espuma e deixar a cerveja se formar sem gaseificação”, comenta Boaventura, refletindo sobre a essência das ales inglesas.

No bar em que atua, Kolling serve regularmente a Oslo Best Bitter (OBB), uma cerveja de linha que mantém viva a tradição das Bitters, tanto na receita quanto na apresentação: clarificação perfeita, baixa carbonatação e serviço no cask com beer engine — a bomba manual que puxa a cerveja diretamente do barril sem o uso de CO₂.

Não perca esse episódio, que conta com a parceria da Hops Company, da Levteck, da EZbrew e da Cerveja Stannis.

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#298 – Dia de Julgamento: Belgian Blond Ale & Mixed-Style Beer

Dia de Julgamento #2 - Brassagem Forte

Dia de Julgamento #2 – Belgian Pale Ale e Mixed-style Beer

Introdução

Neste episódio da série “Dia de Julgamento”, do Brassagem Forte, Henrique Boaventura convida dois juízes BJCP — Oscar Freitas, presidente da Acerva Brasil, e Faustus, cervejeiro caseiro e ouvinte de longa data do Brassagem Forte — para uma experiência de avaliação completa de duas cervejas produzidas pelo próprio Faustus: uma Belgian Pale Ale e uma Mixed Style Beer baseada em German Pils, feita com lúpulos brasileiros.

O programa, inspirado no formato do Dr. Homebrew da Brewing Network, mostra em detalhes como juízes BJCP conduzem uma análise técnica, atribuem notas e discutem processos e percepções sensoriais com o próprio autor da cerveja.

Confira essa avaliação de altíssimo nível, em mais um episódio com a parceria da Hops Company, da Levteck e da Cerveja Stannis.

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#297 – A Hora Ácida #9: Por que não é possível produzir lambic no Brasil?

Brassagem Forte - lambic

Introdução: espontânea não é “selvagem” — e Lambic não é estilo genérico

Neste episódio da série A Hora Ácida, Henrique Boaventura conversa com Diego Simão (Cervejaria e Sidreria Cozalinda) e responde, de forma técnica: por que Lambic não se produz no Brasil. O núcleo está no terroir — conjunto de fatores ambientais, biológicos, materiais e culturais impossível de replicar fora de origem.

Também se alinham os conceitos: fermentação espontânea (mínima intervenção com inoculação ambiental), fermentação mista (culturas selecionadas +/- ambiente) e o guarda-chuva “selvagem” (microrganismos não-industriais). Lambic pertence à espontânea tradicional de Bruxelas/Pajottenland, com método e denominação específicos.

É mais um papo que conta com a parceria da Hops Company, da Levteck e da Cerveja Stannis.

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